Inside the White Cube #01: first there was darkness
Sérgio Braz de Almeida

THE WHITE CUBE

No início do século XX as galerias começaram a seguir uma estética denominada “White cube”. Estes espaços expositivos assumiram uma forma “quadrada ou oblonga, paredes brancas e uma fonte de luz geralmente proveniente do teto. A estética foi introduzida em resposta à crescente abstração da arte moderna. Com ênfase na cor e na luz, artistas de grupos como De Stijl e Bauhaus preferiram expor os seus trabalhos contra paredes brancas para minimizar as distrações. As paredes brancas também foram pensadas para funcionar como moldura.

Ainda nos dias de hoje, esta estética é amplamente usada na maior parte das galerias e museus, um pouco por todo o mundo.
Partindo deste conceito INSIDE THE WHITE CUBE #01: Fist there was darkness questiona o espaço da galeria como espaço físico bem com a existência de luz. No princípio, este trabalho work in progress começa na escuridão. 

THE CUBE

O dispositivo que impulsiona esta reflexão sobre espaços expositivos assume a forma de uma microescultura no formato de um pequeno cubo com 10cm em cada aresta. 

Numa das faces deste cubo existe um QR code que dá acesso a uma paisagem sonora. 

De uma forma simbólica, cada um destes cubos representa uma galeria. No entanto, é uma galeria minúscula, uma galeria que pode ser transportada para diferentes lugares, cabe num bolso, numa mochila. Oferecemos ao espectador o poder de manipular a localização da própria galeria.

“Em 1976, Brian O’Doherty escreveu uma série de ensaios para a revista Artforum, mais tarde transformados num livro intitulado: Inside the White Cube: The Ideology of the Gallery Space, no qual confrontou a obsessão modernista pelo cubo branco argumentando que cada objeto se tornava quase sagrado no seu interior, tornando problemática a leitura da arte.”

Cada uma destas pequenas galerias cúbicas, possui uma obra de arte, talvez sacralizada pela condição de estar presa dentro deste pequeno cubo branco. Cria-se uma analogia direta com o conceito de galeria de arte. 

As obras de arte contidas dentro do cubo, não serão percepcionadas dentro de paredes brancas. Surge o paradoxo existencialista de interpretação do espaço expositivo. 

O que está dentro do cubo? 

Estará o gato morto ou vivo? 

Dentro do cubo… existirá uma galeria? 

Este espaço imaginário é inalcançável, assume dimensões transcendentais que só podem ser resolvidas pela imaginação do observador.

OUTSIDE THE CUBE

O QR code numa das faces do cubo, permite que a obra de arte seja transferida de dentro do cubo, para um objecto pessoal do observador.

Dá-se assim, de forma simbólica, a transferência da galeria clássica (white cube) para um telemóvel, um ipad. Objetos bem mais abundantes que galerias de arte. 

Esta transferência do espaço expositivo convida a refletir sobre os lugares possíveis de exibição de obras de arte. 

Pensamos, antes de mais, numa galeria como um espaço onde entramos. Com o pequeno cubo, levanta-se a possibilidade de anulação da galeria como espaço imobiliário, em detrimento de um objecto de pequenas dimensões, móvel e, de certa forma, efêmero.

De forma objectiva, o pequeno cubo não é um real espaço expositivo, mas sim, um veículo para transportar a obra de arte até aos objectos quotidianos que utilizamos todos os dias.
Poderá o nosso telemóvel ter o mesmo prestígio que o Guggenheim?
Em todos os grandes museus existem curadores que selecionam as obras de arte em cartaz. 
Poderemos ser nós os curadores da nossa Galeria?
Existem várias questões formais que são levantadas pela utilização deste suporte específico.

Mas, para além disso. É importante que a experiência do utilizador seja mais do que apenas a experiência de um espaço expositivo, ou a questionação do mesmo.

“Sound is part of our memory; it has a physicality that allows us to be utterly present or transported to a special place.” Garth Paine

THE ART WORKS INSIDE THE CUBE

Cada lugar tem uma paisagem sonora específica. A paisagem sonora numa zona rural é drasticamente diferente da paisagem sonora em territórios urbanos. Todas estas paisagens são pejadas de sons que reconhecemos: O som de água a correr num riacho, de carros na ao fundo na estrada, de pássaros a cantar, de aviões a passar la bem alto no ceu, de uma trovoada, de uma mensagem de telemóvel..

Estes sons são reconhecidos instantaneamente por todos nós. É possível recolher diversos sons em bases de dados e criar uma paisagem que, embora não exista nem nunca tenha existido, é percepcionada como real para quem ouve essa composição sonora. Neste projecto pretendemos que todos os sons sejam recolhidos no local de residência em interacção com a comunidade, com zero recurso a outras bases de dados. 

Cada QR code dá acesso a uma paisagem sonora.


THE ARTIST INSIDE THE CUBE
Sérgio Braz d’Almeida Formado em Cinema e Vídeo pela ESAP (Porto), estudou na FAMU (Praha) como bolseiro da FCFE; Estudou Documentary film na USC School of cinematic arts (Los Angeles); curso de encenação Gulbenkian. Frequentou o Mestrado em antropologia culturas visuais na FCSH (Lisboa) e curso de pintura na AR.Co.
O seu trabalho incide na exploração da imagem (em movimento ou cristalizada) no cruzamento com outras artes. Iniciou o seu percurso como diretor de fotografia, mais tarde realiza ficções, documentários, vídeos para espetáculos e galerias de arte. Desde 2018 desenvolve trabalho experimental no campo das artes visuais.


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