Un ben konta-bu un stória
exposição
Un ben konta-bu un stória – A casa, caixa de memórias e sonhos

Resultado de um projeto de intercâmbio cultural, Cerâmicas do Mundo – Cabo Verde cruza as tradições da olaria e da tecelagem numa reflexão artística sobre a casa e a memória, promovendo um encontro entre culturas fundado na partilha de saberes. Num território insular como o cabo-verdiano, a partida e o regresso estruturam o ritmo da existência. O almejado “sair” e o sonhado “voltar” conferem à casa uma carga simbólica que ultrapassa largamente a materialidade física. A casa é afeto, refúgio emocional, pertença à terra (nos terra) e a própria encarnação da nostalgia (sodade). Como lugar de abrigo,
acolhimento, trabalho e intimidade, representa o nosso ponto de ancoragem no mundo — o centro onde nos enraizamos, independentemente da distância ou da duração das viagens.

Quando o espaço físico se transforma ou desaparece, dissipando a memória real, a imaginação reconstrói esse lugar de afeto. É nesse trânsito que os objetos ganham vida, carregando significados que ultrapassam a sua mera utilidade para se tornarem elos de ligação afetiva. Na tradição cabo-verdiana, a olaria e a panaria são pilares fundamentais desta arquitetura poética. Desde a infância, o brinquedo moldado em barro reproduz a casa em miniatura,
transmitindo a ligação umbilical ao território. Paralelamente, o algodão, o fiar, o tingir e o tecer resgatam gestos ancestrais, tendo no pano di terra o expoente máximo da identidade cultural das ilhas.

No contexto da residência Cerâmicas do Mundo, sob o tema a casa caixa de memórias e sonhos, a olaria e a tecelagem interligam-se para explorar este arquétipo. A memória do espaço germinal atua como matéria-prima criativa, enquanto o saber-fazer artesanal disponibiliza as ferramentas de exploração concetual. No trabalho de Virgínia Fróis, a simbologia dos teares ancestrais, o vertical e o horizontal, os fios de algodão e as faixas tecidas pelas mãos de António Garcia dão corpo ao sonho, evocando a memória e o desvanecimento da casa dos tecelões em Trás di Monti. Pelas mãos de Luís Lopes, multiplicam-se as casas-matriz do habitar cabo-verdiano, moldadas a partir das suas memórias diretas de infância em Santo Antão, onde a pedra e a palha foram o cenário do crescimento e dos primeiros sonhos. Os azuis que evocam os sonhos surgem pelo tingimento com índigo, em homenagem à tintinha (indigofera tinctoria) utilizada tradicionalmente em Cabo Verde para o tingimento dos fios. Com a presença especial de Guida Fonseca, foram tingidos os diversos tons de azul e explorados os padrões possíveis a partir do tear trazido de Santiago. Através desta instalação, a interpretação artística materializa os laços ancestrais entre o barro, o têxtil e a matriz identitária de Cabo Verde, convidando o visitante a partir do universo das ilhas para uma viagem interior às suas próprias memórias da casa matricial.

Inaugura no dia 30 de outubro, às 18h30, no Centro Cultural de Cabo Verde – Lisboa, a exposição final – Un ben konta-bu un stória; do projeto Cerâmicas do Mundo – Cabo Verde. A exposição estará disponível ao público até dia 30 de novembro 2026.

Ficha Técnica:

Artistas residentes | António Garcia | Luís Lopes | Virgínia Fróis
Artista convidada | Guida Fonseca
Curadoria | Ana Marta Clemente (Plataforma VOADOR)
Materiais | Algodão | Barro | Grés | Madeira de oliveira | Cana | Índigo (Persicária tinctoria)
Fotografia | José Matos Alves (Plataforma VOADOR)
Vídeo | Pedro Grenha (Oficinas do Convento)
Iniciativa e Produção | Oficinas do Convento
Financiamento | DGARTES e Município de Montemor-o-Novo
Apoio | Embaixada de Cabo Verde


Artistas

Luis Lopes ( Mestre Oleiro ), natural de Santo Antão, Cabo Verde, tem 54 anos e vive na cidade do Porto Novo. Em 1996 começou a fazer extração do barro que serve de matéria prima às suas peças. Utilizando as técnicas de pressão no molde e do rolo, Luís Lopes produz copos, vasos, potes, bindes, caldeiras, moringues e pratos tradicionais, como forma de resgatar estes utensílios que estavam a cair em desuso. Foi mais tarde, com a formação feita em 1991 e 1993 através do Atelier Mar, dirigida por Leão Lopes, que aprendeu a arte da cerâmica. O seu trabalho tem sido reconhecido em diferentes espaços e países tendo as suas peças sido expostas em França, Macau, Tenerife, São Vicente e Santiago.

António Garcia ( Tecelão ), é natural da ilha de Santiago, nascido na zona de Bastião, concelho de Santa Catarina, António Garcia é tecelão há vários anos. Tendo aprendido a arte de tecelagem com Sabino Teixeira, que foi seu Mestre, António Garcia começou a produzir panaria em 2007, trabalhando no tear tradicional com pentes de 17 cm de largura, mantendo alguns dos padrões mais tradicionais. Desde Maio de 2021 que participa na plataforma Voador. Em
2022 esteve em residência artística no Rio de Janeiro, com a designer de moda Ângela Brito, participando na produção de uma coleção realizada com panos de tear – “Pano di Terra” e na apresentação da coleção na São Paulo Fashion Week.

Virginia Fróis ( Escultora ), é natural de Rio Maior, desenvolveu a sua actividade como investigadora e como docente na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa (1989) onde lecionou as unidades curriculares de cerâmica e escultura. Nesse período orientou diversos trabalhos de investigação no âmbito de vários mestrados, doutoramentos e pós-doutoramentos em Artes Plásticas/Escultura. No âmbito da sua investigação, coordenou o projecto de Investigação Escultura Cerâmica (2001 a 2004, Instituto Francisco de Holanda, Escultura Cerâmica), onde se destaca o trabalho de recuperação de esculturas da colecção de escultura barroca em terracota do Mosteiro de Alcobaça e a produção da exposição (E)vocações juntamente com o IPPAR (2003 a 2004). Desenvolveu projetos para a Companhia Nacional de Refractários da Abrigada e para a Fábrica Bordalo Pinheiro nas Caldas da Rainha e em 2005, iniciou o projeto Guardar Águas (Terra di Barro http://youtu.be/mp-J6cJrgwo), realizando investigação na área da etnocerâmica – cerâmica feminina na comunidade de Trás di Munti, no município de Tarrafal de Santiago, em Cabo Verde. Em 2009, fundou o Centro de Artes e Ofícios de Cabo Verde ( CAO ).

fotos por José Matos Alves

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