
BREVE MENTE APRESENTA //
“O meu projeto parte do encontro com instrumentos cirúrgicos históricos, especialmente ligados ao corpo feminino — objetos frios e precisos que simbolizam a distância entre a técnica e a sensibilidade. Muitos desses instrumentos foram também apresentados em vitrines, enclausurados e expostos como testemunhos de um saber que, ao mesmo tempo, revela e controla. You’ll Get Hurt reúne uma série de imagens pertencentes a um vídeo em stop motion, no qual uma sombra interage com estes objetos de forma aparentemente inocente e despretensiosa. Movida por uma curiosidade quase infantil, a sombra aproxima-se, explora e experimenta, até que o contacto com um dos instrumentos resulta em dor. A obra propõe uma reflexão sobre a curiosidade como impulso fundamental da condição humana — uma força que nos conduz à descoberta, mas que também implica vulnerabilidade e risco.”
Tatyana Cristina ( Lisboa, 2001) é artista visual, licenciada em Pintura pela Faculdade de Belas – Artes da Universidade de Lisboa. Atualmente vive e trabalha em Lisboa.
O seu mais recente projeto nasce do encontro com instrumentos cirúrgicos dos séculos XVIII e XIX, especialmente aqueles ligados ao
corpo feminino. Estes objetos, concebidos para examinar, intervir ou controlar, revelam-se como extensões materiais de uma história de violência e dominação sobre o corpo da mulher. Frágeis e precisos, duros e belos, estes instrumentos — bisturis, sondas, pinças, espéculos — tornam-se metáforas visuais da relação ambígua entre dor e cuidado, entre ciência e poder. A artista reinterpreta-os através da pintura e da composição visual, expondo o contraste entre a frieza do metal e a vulnerabilidade do corpo, entre o gesto clínico e o gesto artístico.
Estamos a viver tempos de guerra e incerteza, em que a fragilidade do corpo humano se revela de forma brutal. Neste contexto, os antigos kits cirúrgicos tornam-se mais do que meros artefactos históricos — são testemunhos de uma luta contínua pela preservação da vida. Se o corpo é efémero, os instrumentos que outrora o tocaram perduram, transportando consigo memória e narrativa. Este projeto procura dar voz a esses objetos silenciosos, reenquadrando-os através da arte e refletindo sobre a nossa própria transitoriedade.
Neste sentido, o projeto ressoa profundamente com a ideia de que resistir é reparar. Reparar — seja uma ferida, uma memória ou um fragmento histórico — é um ato de resistência contra o desaparecimento, contra o silêncio, contra o descartável. Valoriza aquilo que foi fraturado, aquilo que carrega cicatrizes e insiste que a restauração é possível, mesmo sem a ilusão de um regresso à perfeição.
- BREVE MENTE


